By mapozi só novidades |
Sun, 07-Jun-2026, 18:35
𝐀𝐬 𝐛𝐚𝐥𝐚𝐬 𝐞 𝐨 𝐬𝐢𝐥𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐨 𝐝𝐨𝐬 𝐚𝐥𝐭𝐚𝐫𝐞𝐬...
𝐏𝐨𝐫: 𝐃𝐣𝐢𝐧𝐢-𝐰𝐚𝐧𝐠𝐚 - 𝐌𝐚𝐭𝐜𝐡𝐚'𝐬 - 𝐌𝐚𝐜𝐡𝐚𝐯𝐚
Muitos fiéis católicos acordaram com um sobressalto. Não era mais um relato de assalto, não era mais uma vítima anónima das estatísticas da criminalidade, não era mais um membro da ANAMOLA, nem um cidadão abatido por reivindicar direitos ou exigir justiça. Desta vez, as balas encontraram um bispo.
Dom Osório Afonso, bispo da Diocese de Quelimane, foi morto a tiros na sua residência oficial. E o facto, por si só, transcende a esfera religiosa. Porque quando um bispo é assassinado dentro da casa que simboliza acolhimento, paz e autoridade moral, a pergunta deixa de ser apenas quem matou. Passa a ser: o que estamos a transformar-nos enquanto sociedade?
Há muito que os moçambicanos se habituaram a conviver com notícias de mortes violentas. A morte tornou-se tão frequente no espaço público que já não provoca o espanto que deveria provocar. Mudam apenas os nomes, os rostos e as circunstâncias. Contudo, desta vez, o impacto é diferente. Não porque a vida de um bispo valha mais do que a de qualquer cidadão, mas porque a sua morte derruba a ilusão de que ainda existem lugares intocáveis.
A residência episcopal deveria ser um espaço de oração. Tornou-se cena de crime. O altar deveria ser lugar de esperança. Hoje, é também lugar de inquietação.
Há alguns anos, perante ameaças e riscos evidentes, o Vaticano retirou o Bispo de Pemba de uma zona onde a sua segurança se encontrava comprometida. Muitos questionaram a decisão. Outros compreenderam que certas vozes incomodam precisamente porque se recusam a ser ecos do poder ou do medo. O tempo, porém, tem o hábito cruel de transformar receios em factos.
A morte de Dom Osório Afonso obriga-nos a reflectir sobre algo mais profundo do que o próprio crime. Obriga-nos a pensar num país onde a violência parece ganhar cidadania e onde o medo começa a frequentar espaços que outrora pertenciam apenas à fé, à esperança e à palavra.
As autoridades investigarão os autores materiais. É seu dever. Mas a sociedade terá de investigar os autores morais do ambiente que permite que a vida humana seja tratada com tamanha banalidade. Porque as balas não surgem do vazio. São sempre o produto final de uma cultura que foi aprendendo a tolerar a intolerância, a justificar o injustificável e a normalizar o anormal.
Talvez o mais inquietante nesta tragédia seja o simbolismo. Quando matam um político, muitos procuram razões partidárias. Quando matam um activista, procuram razões ideológicas. Quando matam um bispo, o que procuram matar?
Talvez a resposta esteja precisamente aí. Há homens que representam mais do que a sua pessoa. Representam valores. Representam consciência. Representam a capacidade de recordar à sociedade aquilo que ela prefere esquecer.
E é por isso que este crime não deve inquietar apenas os católicos. Deve inquietar todos os moçambicanos. Porque quando as balas entram na casa de Deus, ninguém pode afirmar com segurança que a sua própria porta continua protegida.
No fim, permanece uma amarga ironia: 𝐧𝐮𝐦 𝐩𝐚𝐢́𝐬 𝐨𝐧𝐝𝐞 𝐭𝐚𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐫𝐝𝐞𝐫𝐚𝐦 𝐚 𝐟𝐞́ 𝐧𝐚𝐬 𝐢𝐧𝐬𝐭𝐢𝐭𝐮𝐢𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬, 𝐚𝐭𝐞́ 𝐮𝐦 𝐡𝐨𝐦𝐞𝐦 𝐝𝐚 𝐟𝐞́ 𝐚𝐜𝐚𝐛𝐨𝐮 𝐩𝐨𝐫 𝐧𝐚̃𝐨 𝐞𝐧𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐭𝐞𝐜𝐜̧𝐚̃𝐨. 𝐄 𝐪𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐮𝐦 𝐛𝐢𝐬𝐩𝐨 𝐝𝐞𝐢𝐱𝐚 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐫 𝐬𝐞𝐠𝐮𝐫𝐨 𝐝𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐚 𝐬𝐮𝐚 𝐩𝐫𝐨́𝐩𝐫𝐢𝐚 𝐫𝐞𝐬𝐢𝐝𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚, 𝐭𝐚𝐥𝐯𝐞𝐳 𝐬𝐞𝐣𝐚 𝐚 𝐩𝐫𝐨́𝐩𝐫𝐢𝐚 𝐧𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐣𝐚 𝐚 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞𝐫 𝐚 𝐞𝐱𝐭𝐫𝐞𝐦𝐚-𝐮𝐧𝐜̧𝐚̃𝐨.